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segunda, 16 julho 2018 11:28

A Turquia: por Entre a Economia e a Política

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Comentando os resultados das recentes eleições presidenciais o observador do site eletrônico turco T24, Yaltchin Dogán, tirou a conclusão de que a economia seja agora o único rival de  Recep Tayyip Erdoğan. (t24.com.tr)

Mas as autoridades afirmam que na economia tudo corre bem: no ano passado havia um crescemento de 7,4 por cento. Numa entrevista à agência “Bloomberg” dada há pouco Recep Tayyip Erdoğan fez lembrar que durante os 16 anos da sua governação o per capito do PIB aumentou desde 3,5 mil até 11 mil dólares, e em geral a Turquia demonstrou ao mundo “um exemplo lendário de desenvolvimento”. (bbc.com)

No entanto, na nossa opinião, a economia turca em geral representa em si um quadro bastante contraditório. A par de êxitos indubitáveis existe um número mais do que suficiente de problemas. As taxas de juros de obrigações de estado tiveram um crescimento-recorde sendo isso uma evidência de investidores não desejarem fazer contribuições monetárias na economia. Em março a agência de  rating “Moody's” diminuiu a nota de risco do país, em maio a "Standart & Poor’s” fez o mesmo. Durante os quatro anos  passados depois da eleição de Recep Tayyip Erdoğan para a presidência o desemprego aumentou até 10,9 e o da juventude -  até 19 por cento. Durante os cinco mêses de 2018 a cotação de câmbio da moeda nacional diminuiu em 20 por cento em relação ao dólar resultando em um aumentoo súbito de preços de consumo que em maio atingiu 12,15 por cento em comparação com 10,85 por cento em abril.

O corrente índice da confiança na economia constituiu 90,4 por cento tendo diminuido em 3,1 por cento em comparação com maio último. A reeleição de Recep Tayyip Erdoğan de modo algum fortaleceu a “confiança no dia de amanhã”.

 Em maio na mensal “Foreign Policy” foi publicado um artigo que deu a conhecer  os seis erros mais grandes, na sua opinão, que o presidente da Turquia teve cometido na política econômica. (birgun.net)

Segundo a versão da mensal, no início da lista é colocada a convicção do líder turco de que a origem de todos os males seja a alta taxa de desconto e, consequentemente, os juros exagerados , apesar da opnião de tal política do Banco Central ser completamente justificada nas condições de queda da cotação da moeda nacional. Na opinião da mensal, Sr. Erdogan “continua declarando uma atitude não ortodoxa para com a regulação financeira: quanto mais baixa seja a taxa, tanto mais baixa seria a inflação”.  Além do mais, o presidente não está defendendo sua tese “básica”, mas também está exercendo uma pressão administrativa sobre o Banco Central, formalmente independente nas questões da política monetária e de crédito. Aliás, com o término das eleições a “Reuters” procurou saber que planos têm os maiores  investidores do mundo em relação à Turquia. Os investidores, como se soube, estão esperando e, antes de tudo, desejam saber se o Banco Central da Turquia será  de veras independente das autoridades. Quanto a isso, temos que constatar que logo após a sua reeleição Sr. Erdogan prometeu aumentar seu controle pessoal sobre o Banco Central, o qual “apesar da independência que tem não deve menosprezar os sinais vindos do presidente”. (gazeteemek.com)

No segundo lugar esteve um fomento multilteral do crescimento econômico contínuo. Em relação a isso a mensal advertiu: um crescimento deste gênero provoca uma recessão e um aumento da inflação que “consuma” as receitas da população juntamente com suas econoomias.

Terceiroo ponto: o Sr; Erdogan tem certeza de que investidores venham à Turquia, venham em qualquer caso. Enquanto isso, a queda da cotação da moeda nacional fá-lôs duvidar da estabilidade política no país, opina a mensal.   

Quarto: constituem um problema os impostos altos pagos pela classe média, urbana e educada, que, via de regra, tem atitudes oposicionistas, e a redistribuição das receitas (empreendimentos de estado) entre  os paridários do presidente.  

Quinto: a convicçaõ das autoridades de que os problemas econômicos da Turquia sejam nada mais do que uma consequência da “atividade subversiva” premeditada de umas forças mal-intencionadas externas.  Em relação a isso o presidente da Turquia não toma em consideração as estimativas das agências internacionais de rating o que, por sua vez espanta investidores estrangeiros.

Sexto: a consolidação do estado em prejuizo à sociedade civil leva (juntamente com o quarto ponto) ao crescimento da tenção social e poolítica no país.

A conclusão geral consiste em que  “o comportamento de Recep Tayyip Erdoğan em relação às questões da política econômica apenas contribue para o agravamento da dificuldade na economia”. 

No entanto, foi o candidato para a presidência do oposicionista Partido Popular-Republicano, Muharrem İnce, que num dos comícios pre-eleitorais também advertiu: “Estamos no umbral de uma crise, uma crise econômica. Erdogan não poderá dominá-lô. Em vez disso prefere travar uma luta contra o mundo inteiro”. (sozcu.com.tr) Além disso Muharrem İnce prometeu então, em caso ganhar as eleições, “pôr o fim ao desperdício insensato  dos meios de estado”, fazendo uma alusão aos créditos e às garantias de estado dados em abundância à economia com vista a um aumento de investimentos.  Aludiu, em particular, aos “projetos-mega” a serem postos em prática, sendo isso um tópico especial.

“Os planos enormes” (140 projetos-mega no total!) – isto é um novo “cartão-de-visita” de Sr. Erdogan.

Uma parte disso já está posta em prática:

- os túneis ferroviário e rodoviário debaixo do fundo do  Bósforo (“Marmaray”). As autoridades afirmam que o “Mamaray” é capaz de resistir a sismos de magnitude 9 na Escala de Richter (segundo os cálculos de sismólogos um terremoto forte é esperado no futuro próximo).

- a maior mesquita no mundo, segundo as afirmações das autoridades situada num morro nas proximidades do Bósforo, capaz de acolher 38 mil pessoas. 

- a ponte através do golfo de Izmit do mar de Mármara e  a terceira ponte através do Bósforo destinados para aliviar a situação com o tráfego em Estambul e na estrada Ancara – Estambul, com o tráfego excessivo,  maior o país. Aliás, os automobilistas turcos não se apressam com  o aproveitamento desta rotas por causa das tarifas de passagem demasiadamente grandes.

- o novo palácio presidencial na reserva natural em Ancara, 30 vezes  maior do que a Casa Branca e 4 vezes  - do que o Versalles. Na opinião de especialistas, não existe qualquer outro chefe do estado que tenha a residência igual em tamanho e luxo.

- nos arredores de Estambul está chegando ao término a construção do maior aeroporto na planeta com a planejada circulação de 150 milhões de passageiros por ano (o recordista atual – o aeroporto de Atlanta atende 95 milhões de passageiros por ano). Com isso o aeroporto internacional Atatürk que se encontra na parte europeia da cidade será fechado apesar de seu funcionamento bom. O novo aeroporto está à distância de 63 quilómetros da cidade, o metro  não vai para lá, e ainda não se sabe bem, como dezenas de milhões de passageiros iriam chegar a este porto aéreo.   

- e finalmente o maior projeto-mega – isto é o “Canal de Estambul” que irá ligar o mar Negro com o mar de Mármara indo paralelamente com o Bósforo. As autoridades planejam organizar um concurso para sua construção já este ano e terminar a obra em 2023, - para o centésimo aniversário da República da Turquia. Espera-se que o canal dé um alívio ao Bósforo com a limitada capacidade diária de tráfego de 130 navios, e também reduza a possibilidade de desastres tecnolôgicos na cidade densamente populada. Segundo as estimativas oficiais o projeto custará 15  bilhões de dólares, mas praticamente não há dúvidas de que o custo final sairá muito mais caro. Aliás ainda não se sabe se os armadores estiverem dispostos a pagar a travessia do canal novo sendo que, em conformidade com a Convenção de Montreux, a Turquia deve deixar navios estrangeiros passar pelo estreito gratuitamente. 

Muitos cientistas têm receios de que a construção do canal resulte na violação do equilíbrio natural entre o mar de Mármara, mais quente e salgado, e o mar Negro, menos salgado e quente. A eflorescência algal possível no mar de Mármara poderia resultar em consequências desastrosas para a flora e a fauna marítima, e Estambul para sempre estaria penetrada do odor de sulfeto de hidrogênio. Além disso, na opinião de peritos, o derrubamento inevitável das florestas e a destruição das fontes de água doce ao sul da megalópole causaria ao agravamento da situação ecolôgia na região em geral.

As autoridades afirmam que a parte leonina de despesas com os projetos-mega é atribuida aos investidores privados, mas os investimentos são garantidos com a propriedade do estado (basicamente com lotes de terra), e além disso, o estado promete indemnizar gastos do capital privado, se a exploração de novos objetos não trouxer receitas. Por isso, na opinião de peritos, este empreendimento pode tornar-se uma mina de ação retardada sob a economia nacional. Não foi por acaso que o FMI aconselhou a Turquia ter uma atitude mais seletiva para com  a escolha de projetos-mega.

É claro que um efeito positivo destas inciativas contribue para aumento do prestígio do regime governante nos olhos dos eleitores, mas dúvidas de que a economia nacional resista a uma carga destas são mais do que oportunas. O custo preliminar (!) total dos projetos equivale 325 bilhões de dólares com o PIB 849 dólres (2017).  Simultaneamente, segundo os dados do Centro Turco da Pesquisa político-externa e econômica (EDAM), o défice corrente da balança comercial do país atingiu 40 bilhões de dólares, a dívida pública externa consolidada está chegando a metade de trilhão de dólares, o total de dívidas de curto prazo – a 170 bilhões de dólares, a necessidade de finaciamento externo anual da economia atingiu 20 bilhões de dólares (edam.org.tr).  Com isso, uma hipotética renûncia às obrigações custosas pode, por seu turno,  prejudicar o prestígio do país constatando sua falência  econômica.

A situação econômica, bastante longe de ser a mais positiva, resulta em restrições inevitáveis na política externa de Ancara. Na opinião do diretor do Centro de Pesquisa Econômica junto ao Instituto da Globalização e dos Movimentos Sociais, Vassili Koltachôv, o problema mais grave da economia da Turquia, orientada à exportação é ligado a sua escala relativamente pequena, e deixando de tomar parte de projetos de integração a economia torna-se vulnerável a desafios internos e externos. “A integração da Turquia em alguma coisa enorme seria sua salvação”, - afirma Sr. Koltachôv. (eadaily.com)    

Nos marcos deste discuro parece evidente a opção entre as unidades políticas e econômicas do Oeste (a OTAN, a UE) e do Leste (a UEE, a OCX). Mas a renúncia do vetor ocidental na política externa, de facto promulgada por Sr. Erdogan, ainda não encontrou sua conclusão lógica na forma de uma aproximação real do Leste. A demais, a possibilidade mesma de distanciar-se do Oeste e de seus aliados seria problemática para a Turquia. Segundo as palavras de politicôlogo e jornalista, Barysh Doster, “não é a quantidade de votos dos eleitores que determina a política externa, mas o poderio do estado. A ligação da Turquia ao Ocidente tem um caráter estrutural e sua política não iria mudar para amanhã”. (t24.com.tr). E o relato preparado pelo Centro das Relações Internacionais e  da Análise Estratégica (TÜRKSAM) afirma que a deriva da Turquia em direção à Rússia, ao Irão e à China, a sua renûncia de facto as reivindicações de destituição de Bashar al-Assad resultariam numa deterioração das relações com a Arábia Saudita e com o Catar, as fontes principais de “dinheiro quente”, indispensável para um funcionamento normal da economia nacional. Além do mais, levando em conta o facto de a metade da exportação turca é feita atravews dos países da UE, não se deve esperar quaisquer mudanças cardinais do rumo da política externa. “A Turquia não tem a possibilidade de passar para uma outra liga,” – dizem constatando os peritos do TÜRKSAM. (turksam.org)

Apesar disso a Turquia ultimamente está praticando uma política de vários vetores, nitidamente traçada. E não se pode pôr de lado o fato de a Rússia ser o segundo parceiro comercial da Turquia. No ano passado a circulação de mercadorias entre os dois países aumentou em 37 por cento alcançando 21 bilhão de dólares. A cooperação bilateral está fortalecendo-se de caju em caju causando uma irritação aberta por parte dos EUA.

Sobre este fundo os problemas econômicos continuam acumulando-se, e vitória nas eleições em junho   é, em certa medida, um empréstimo político dos eleitores dado a Recep Tayyip Erdoğan. As seguintes  eleições vão dar a conhecer a que ponto o presidente  conseguiria dominar os problemas sociais e econômicos do país.

 

A opinião do autor pode desencontrar-se com a posição da Redação.

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