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Andrey Isaev

Andrey Isaev

Comentando os resultados das recentes eleições presidenciais o observador do site eletrônico turco T24, Yaltchin Dogán, tirou a conclusão de que a economia seja agora o único rival de  Recep Tayyip Erdoğan. (t24.com.tr)

Mas as autoridades afirmam que na economia tudo corre bem: no ano passado havia um crescemento de 7,4 por cento. Numa entrevista à agência “Bloomberg” dada há pouco Recep Tayyip Erdoğan fez lembrar que durante os 16 anos da sua governação o per capito do PIB aumentou desde 3,5 mil até 11 mil dólares, e em geral a Turquia demonstrou ao mundo “um exemplo lendário de desenvolvimento”. (bbc.com)

No entanto, na nossa opinião, a economia turca em geral representa em si um quadro bastante contraditório. A par de êxitos indubitáveis existe um número mais do que suficiente de problemas. As taxas de juros de obrigações de estado tiveram um crescimento-recorde sendo isso uma evidência de investidores não desejarem fazer contribuições monetárias na economia. Em março a agência de  rating “Moody's” diminuiu a nota de risco do país, em maio a "Standart & Poor’s” fez o mesmo. Durante os quatro anos  passados depois da eleição de Recep Tayyip Erdoğan para a presidência o desemprego aumentou até 10,9 e o da juventude -  até 19 por cento. Durante os cinco mêses de 2018 a cotação de câmbio da moeda nacional diminuiu em 20 por cento em relação ao dólar resultando em um aumentoo súbito de preços de consumo que em maio atingiu 12,15 por cento em comparação com 10,85 por cento em abril.

O corrente índice da confiança na economia constituiu 90,4 por cento tendo diminuido em 3,1 por cento em comparação com maio último. A reeleição de Recep Tayyip Erdoğan de modo algum fortaleceu a “confiança no dia de amanhã”.

 Em maio na mensal “Foreign Policy” foi publicado um artigo que deu a conhecer  os seis erros mais grandes, na sua opinão, que o presidente da Turquia teve cometido na política econômica. (birgun.net)

Segundo a versão da mensal, no início da lista é colocada a convicção do líder turco de que a origem de todos os males seja a alta taxa de desconto e, consequentemente, os juros exagerados , apesar da opnião de tal política do Banco Central ser completamente justificada nas condições de queda da cotação da moeda nacional. Na opinião da mensal, Sr. Erdogan “continua declarando uma atitude não ortodoxa para com a regulação financeira: quanto mais baixa seja a taxa, tanto mais baixa seria a inflação”.  Além do mais, o presidente não está defendendo sua tese “básica”, mas também está exercendo uma pressão administrativa sobre o Banco Central, formalmente independente nas questões da política monetária e de crédito. Aliás, com o término das eleições a “Reuters” procurou saber que planos têm os maiores  investidores do mundo em relação à Turquia. Os investidores, como se soube, estão esperando e, antes de tudo, desejam saber se o Banco Central da Turquia será  de veras independente das autoridades. Quanto a isso, temos que constatar que logo após a sua reeleição Sr. Erdogan prometeu aumentar seu controle pessoal sobre o Banco Central, o qual “apesar da independência que tem não deve menosprezar os sinais vindos do presidente”. (gazeteemek.com)

No segundo lugar esteve um fomento multilteral do crescimento econômico contínuo. Em relação a isso a mensal advertiu: um crescimento deste gênero provoca uma recessão e um aumento da inflação que “consuma” as receitas da população juntamente com suas econoomias.

Terceiroo ponto: o Sr; Erdogan tem certeza de que investidores venham à Turquia, venham em qualquer caso. Enquanto isso, a queda da cotação da moeda nacional fá-lôs duvidar da estabilidade política no país, opina a mensal.   

Quarto: constituem um problema os impostos altos pagos pela classe média, urbana e educada, que, via de regra, tem atitudes oposicionistas, e a redistribuição das receitas (empreendimentos de estado) entre  os paridários do presidente.  

Quinto: a convicçaõ das autoridades de que os problemas econômicos da Turquia sejam nada mais do que uma consequência da “atividade subversiva” premeditada de umas forças mal-intencionadas externas.  Em relação a isso o presidente da Turquia não toma em consideração as estimativas das agências internacionais de rating o que, por sua vez espanta investidores estrangeiros.

Sexto: a consolidação do estado em prejuizo à sociedade civil leva (juntamente com o quarto ponto) ao crescimento da tenção social e poolítica no país.

A conclusão geral consiste em que  “o comportamento de Recep Tayyip Erdoğan em relação às questões da política econômica apenas contribue para o agravamento da dificuldade na economia”. 

No entanto, foi o candidato para a presidência do oposicionista Partido Popular-Republicano, Muharrem İnce, que num dos comícios pre-eleitorais também advertiu: “Estamos no umbral de uma crise, uma crise econômica. Erdogan não poderá dominá-lô. Em vez disso prefere travar uma luta contra o mundo inteiro”. (sozcu.com.tr) Além disso Muharrem İnce prometeu então, em caso ganhar as eleições, “pôr o fim ao desperdício insensato  dos meios de estado”, fazendo uma alusão aos créditos e às garantias de estado dados em abundância à economia com vista a um aumento de investimentos.  Aludiu, em particular, aos “projetos-mega” a serem postos em prática, sendo isso um tópico especial.

“Os planos enormes” (140 projetos-mega no total!) – isto é um novo “cartão-de-visita” de Sr. Erdogan.

Uma parte disso já está posta em prática:

- os túneis ferroviário e rodoviário debaixo do fundo do  Bósforo (“Marmaray”). As autoridades afirmam que o “Mamaray” é capaz de resistir a sismos de magnitude 9 na Escala de Richter (segundo os cálculos de sismólogos um terremoto forte é esperado no futuro próximo).

- a maior mesquita no mundo, segundo as afirmações das autoridades situada num morro nas proximidades do Bósforo, capaz de acolher 38 mil pessoas. 

- a ponte através do golfo de Izmit do mar de Mármara e  a terceira ponte através do Bósforo destinados para aliviar a situação com o tráfego em Estambul e na estrada Ancara – Estambul, com o tráfego excessivo,  maior o país. Aliás, os automobilistas turcos não se apressam com  o aproveitamento desta rotas por causa das tarifas de passagem demasiadamente grandes.

- o novo palácio presidencial na reserva natural em Ancara, 30 vezes  maior do que a Casa Branca e 4 vezes  - do que o Versalles. Na opinião de especialistas, não existe qualquer outro chefe do estado que tenha a residência igual em tamanho e luxo.

- nos arredores de Estambul está chegando ao término a construção do maior aeroporto na planeta com a planejada circulação de 150 milhões de passageiros por ano (o recordista atual – o aeroporto de Atlanta atende 95 milhões de passageiros por ano). Com isso o aeroporto internacional Atatürk que se encontra na parte europeia da cidade será fechado apesar de seu funcionamento bom. O novo aeroporto está à distância de 63 quilómetros da cidade, o metro  não vai para lá, e ainda não se sabe bem, como dezenas de milhões de passageiros iriam chegar a este porto aéreo.   

- e finalmente o maior projeto-mega – isto é o “Canal de Estambul” que irá ligar o mar Negro com o mar de Mármara indo paralelamente com o Bósforo. As autoridades planejam organizar um concurso para sua construção já este ano e terminar a obra em 2023, - para o centésimo aniversário da República da Turquia. Espera-se que o canal dé um alívio ao Bósforo com a limitada capacidade diária de tráfego de 130 navios, e também reduza a possibilidade de desastres tecnolôgicos na cidade densamente populada. Segundo as estimativas oficiais o projeto custará 15  bilhões de dólares, mas praticamente não há dúvidas de que o custo final sairá muito mais caro. Aliás ainda não se sabe se os armadores estiverem dispostos a pagar a travessia do canal novo sendo que, em conformidade com a Convenção de Montreux, a Turquia deve deixar navios estrangeiros passar pelo estreito gratuitamente. 

Muitos cientistas têm receios de que a construção do canal resulte na violação do equilíbrio natural entre o mar de Mármara, mais quente e salgado, e o mar Negro, menos salgado e quente. A eflorescência algal possível no mar de Mármara poderia resultar em consequências desastrosas para a flora e a fauna marítima, e Estambul para sempre estaria penetrada do odor de sulfeto de hidrogênio. Além disso, na opinião de peritos, o derrubamento inevitável das florestas e a destruição das fontes de água doce ao sul da megalópole causaria ao agravamento da situação ecolôgia na região em geral.

As autoridades afirmam que a parte leonina de despesas com os projetos-mega é atribuida aos investidores privados, mas os investimentos são garantidos com a propriedade do estado (basicamente com lotes de terra), e além disso, o estado promete indemnizar gastos do capital privado, se a exploração de novos objetos não trouxer receitas. Por isso, na opinião de peritos, este empreendimento pode tornar-se uma mina de ação retardada sob a economia nacional. Não foi por acaso que o FMI aconselhou a Turquia ter uma atitude mais seletiva para com  a escolha de projetos-mega.

É claro que um efeito positivo destas inciativas contribue para aumento do prestígio do regime governante nos olhos dos eleitores, mas dúvidas de que a economia nacional resista a uma carga destas são mais do que oportunas. O custo preliminar (!) total dos projetos equivale 325 bilhões de dólares com o PIB 849 dólres (2017).  Simultaneamente, segundo os dados do Centro Turco da Pesquisa político-externa e econômica (EDAM), o défice corrente da balança comercial do país atingiu 40 bilhões de dólares, a dívida pública externa consolidada está chegando a metade de trilhão de dólares, o total de dívidas de curto prazo – a 170 bilhões de dólares, a necessidade de finaciamento externo anual da economia atingiu 20 bilhões de dólares (edam.org.tr).  Com isso, uma hipotética renûncia às obrigações custosas pode, por seu turno,  prejudicar o prestígio do país constatando sua falência  econômica.

A situação econômica, bastante longe de ser a mais positiva, resulta em restrições inevitáveis na política externa de Ancara. Na opinião do diretor do Centro de Pesquisa Econômica junto ao Instituto da Globalização e dos Movimentos Sociais, Vassili Koltachôv, o problema mais grave da economia da Turquia, orientada à exportação é ligado a sua escala relativamente pequena, e deixando de tomar parte de projetos de integração a economia torna-se vulnerável a desafios internos e externos. “A integração da Turquia em alguma coisa enorme seria sua salvação”, - afirma Sr. Koltachôv. (eadaily.com)    

Nos marcos deste discuro parece evidente a opção entre as unidades políticas e econômicas do Oeste (a OTAN, a UE) e do Leste (a UEE, a OCX). Mas a renúncia do vetor ocidental na política externa, de facto promulgada por Sr. Erdogan, ainda não encontrou sua conclusão lógica na forma de uma aproximação real do Leste. A demais, a possibilidade mesma de distanciar-se do Oeste e de seus aliados seria problemática para a Turquia. Segundo as palavras de politicôlogo e jornalista, Barysh Doster, “não é a quantidade de votos dos eleitores que determina a política externa, mas o poderio do estado. A ligação da Turquia ao Ocidente tem um caráter estrutural e sua política não iria mudar para amanhã”. (t24.com.tr). E o relato preparado pelo Centro das Relações Internacionais e  da Análise Estratégica (TÜRKSAM) afirma que a deriva da Turquia em direção à Rússia, ao Irão e à China, a sua renûncia de facto as reivindicações de destituição de Bashar al-Assad resultariam numa deterioração das relações com a Arábia Saudita e com o Catar, as fontes principais de “dinheiro quente”, indispensável para um funcionamento normal da economia nacional. Além do mais, levando em conta o facto de a metade da exportação turca é feita atravews dos países da UE, não se deve esperar quaisquer mudanças cardinais do rumo da política externa. “A Turquia não tem a possibilidade de passar para uma outra liga,” – dizem constatando os peritos do TÜRKSAM. (turksam.org)

Apesar disso a Turquia ultimamente está praticando uma política de vários vetores, nitidamente traçada. E não se pode pôr de lado o fato de a Rússia ser o segundo parceiro comercial da Turquia. No ano passado a circulação de mercadorias entre os dois países aumentou em 37 por cento alcançando 21 bilhão de dólares. A cooperação bilateral está fortalecendo-se de caju em caju causando uma irritação aberta por parte dos EUA.

Sobre este fundo os problemas econômicos continuam acumulando-se, e vitória nas eleições em junho   é, em certa medida, um empréstimo político dos eleitores dado a Recep Tayyip Erdoğan. As seguintes  eleições vão dar a conhecer a que ponto o presidente  conseguiria dominar os problemas sociais e econômicos do país.

 

A opinião do autor pode desencontrar-se com a posição da Redação.

 

O rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, esteve em Moscou na semana passada. A visita foi precedida por dois anos de preparação e não foi a culpa da parte recipiente, a russa, que a chegada do monarca tinha sido adiada. A imprensa da Arábia Saudita estava referindo-se à visita como a “histórica” afirmando que a visita “deve pôr os pontos sobre “i” nas questões políticas, econômicas e estratégicas que dizem respeito ao problema sírio, ao mercado do petróleo e também à aproximação militar da Rússia e da Arábia Saudita e à cooperação na esfera da energia nuclear. (cit. inosmi.ru). Os observadores russos, via da regra, estavam dando avaliações mais reservadas.

Gostariamos de lembrar que as relações diplomáticas entre os dois países foram restabelecidas em 1991, mas a aproximação real começõu no início dos anos 2000, depois da reconciliação na Chechênia. Desde então as partes de vez em quando vocalizaram a intenção de elevar o nível da interação,  mas praticamente limitaram-se apenas com as declarações.

Aliás em uma das direções tem um resultado positivo patente: o Pacto Global de redução da extração do petróleo que ultimamente se torna cada vez mais barato foi concluido em grande medida graças aos esforços de Moscou e de Riade.   Nisso tivemos a coincidência incondicional dos interesses. Não é de duvidar, que segundo os resultados das conversações de Moscou as partes sem entrar em detalhes declararam a prontidão para  prorogar os entendimentos existentes no âmbito do Pacto “se isso for necessário”.  

Além disso foram assinados vários entendimentos na esfera econômica: da cooperação no domínio da energia nuclear, das tecnologias altas, da refinação do petróleo, do transporte, das finanças inclusive, em particular, um entendimento entre a Fundação de Investimentos Diretos da Russia e a Fundação Soberana da Arábia Saudita. Ainda que não devemos esquecer que no Orienete a assinatura de entendimentos significa mais a manifestação de intenções do cumprimento de que foi acordado do que o compromisso de cumpri-lô.    .

Uma repercussão grande tiveram os contratos, memorandos e “acordos preliminares” da cooperação na esfera técnico-militar: trtava-se do fornecimento  de sistemas anti-tanque, de lança-granadas, de construção de uma empresa de armas pequenas na Arábia Saudita – 3,5 bilhões de dólares no total. E, o mais importante, - o entendimento de venda dos sistemas de mísseis S-400 “Triumf” que já se tornaram famosos. Aliás, segundo disse o chefe da “Rosstekh”, Serguei Tchemezov, “os sauditos colocaram a condição que o contrato entrará em vigor se lhes for entregue uma parte de tecnologias e iniciada a produção no territorio do reino”. Mas ainda é duvidoso, se a Rússia vai aceder com isso. Além disso, segundo disse o mesmo Serguei Tchemezov, “cinco anos atrás assinámos contratos com o valor de 20 bilhões de dólares, mas afinal tudo se limitou com as intenções. Nos tempos de então Riade comprou nada. Na realidade os sauditos aspenas brincaram conosco dizendo: deixem de vender os sistemas antiaéreos S-300 ao Irão e ebtão vamos adquirir seus armamentos – carros blindados e outro material”. 0 Ирану, и мы будем брать ваше оружие — танки и другую технику». (https://lenta.ru/news/2017/07/10/saudi/)

Ainda não há motivos para julgar que este jogo acabou. As forças armadas sauditas têm em seu dispor os armamentos mais modernos norte-americanos, btitânicos e franceses. O rearmanento não teria senso, tanto mais os sauditas acabaram de assinar com Donald Trump um contrato-recorde do fornecimento de armas que custam mais de 100 bilhões de dólares. Também não têm motivos para fazer alguma coisa “em prejuizo” do Ocidente, como o fez a Turquia, - as relações entre Riade por um lado e Washington e Bruxelas por outro apesar de não serem ideais (isso simplesmente seria impossível), são  plenamente as “de parceria estratégica”.    

É provável que existe uma outra razão. Infelizmente no Médio Oriente esta ganhando envergadura uma nova rodada da oposição confessional entre os sunitas e xiitas personificados pela Arábia Saudita e pelo Irão respetivamente, sendo que hoje é o Irão que apoderou-se da iniciativa promovendo sua influência na Síria, no Iraque, Iémen, Líbano (através do Hizbollah) e até na região do Golfo Pérsico – no Catar do qual nada gostam os visinhos. A propósito, ao lado do Catar encontra-se Bahrein que é em grande parte xiita e também no Reino Saudito existe uma população xiita bastante numerosa.

Levando en consideração as críticas múltiplas do Teerão proferidas em público pelo rei saudito em Moscou restam poucas dúvidas de que o tema iraniano fosse um dos principais na parte da agenda das coversações dedicada à política  externa. A questão, digamos, já está madura: pressionados pelas tropas  sírias, iranianas e russas e também pelas forças controladas por Teerão e Ancara, os grupos pro-sauditos perdem suas posições cada vez mais rapidamente e a influência que tem o Reino na região está diminuindo. É provável por isso que a posição de Riade seja motivada por uma intenção destas: “Poderiamos comprar suas armas, mas só não as vendem ao Irão”. Apesar de algumas dificuldades econômicas dos últimos tempos a dinastia governante é capaz de  investir uns bilhões de dólares em “ferro” somente para que o adversário não o adquira.  Além de dinheiro também existem dividendos políticos, isto é, novas oportunidades de contatos com os países da região. Não foi por acaso que nas vésperas da visita as média sauditas sublinharam mais de uma vez que o melhoramento das relações  entre Riade e Moscou teria uma influência benévola para as relações da última com muitos países da região.

Além disso, também é claro que quaisquer entendimentos sobre a Síria serão difíceis de pôr em prática e prenhes de novos conflitos se não forem apoiados pelas monarquias do Golfo Pérsico (i.e. pela Arábia Saudita). Por isso o próprio fato de chegada do “guardião dos Lugares Santos” à Rússia tem uma importância extraordinária  testemunhando que até Riad  terá reconhecido o nosso país um jogador importante no Oriente Médio e abrindo para Moscou, como é costume dizer agora, um novo campo de oportunidades. A Rússia poderia tentar ser o intermediário na solução do conflito entre a Arábia Saudita e o Irão. Uma missão destas não ofenderia nem um, nem outro dos dois  países sendo que no Oriente negociadores gozam de respeito e se uma tal missão tiver sucesso, isso seria para o bem de todos.

Uma confirmação de que a Rússia possa reclamar este papel para si foi a declaração do redator-chefe do diário saudito “Arab News”, Faizal J. Abbas: “Não podemos deixar de ignorar o fato de a Russia ter se tornado um dos jogadores-chaves no Oriente Médio, em particular, graças à doutrina de Obama que fez com que o papel dos EUA na região pôs-se a diminuir-se, e a Rússia com seu poderio financeiro e militar entrou nesta equação”.

 

https://regnum.ru/news/polit/2331366.html

 

 

Não obstante a constituição turca ter dito, “cada um ligado ao estado turco através de laços de cidadonia é turco”, existem no país dezenas de minorias étnicas e confessionais integrantes das quais sentem-se alheios em relação com a maioria turca sunita. A mais numerosa “minoria” é a curda com quase 20 milhões de pessoas.

O princípio da “nação titular” que se tornou a pedra angular da República Turca  resultou em uma prolongada por muitos anos negação do próprio fato de existência da etnia curda e, como uma consequência disso, - em mêtodos de força a serem aproveitados com preponderância pelo movimento nacional curdo. Nos anos  1970-1980 as forças de proteção da ordem legal turcas lidavam com a Tekoşin, KUK, KUK-SE, Rızgari e outras organizações principalmente esquerdistas. Foi o “marxista-leninista” Partido de trabalhadores  do Curdistão que depois de ter feito saber de si com assaltos de esquadras policiais em 1984 tornou-se um centro de atração dos radicais curdos. 

A oposição curda legal criou-se um pouco mais tarde. Cumpre dizer que até hoje as existentes realidades tornam legalmente impossível a declaração de proteção de qualquer etnia na Turquia. A unidade territorial e nacional do país permanece um “ponto neurálgico” de não apenas a ideologia oficial, mas também da consciência de massas dos cidadãos  a partir dos tempos do  Tratado de Sèvres de 1920 que pôs o fim ao Império Otomano. Por isso os partidos curdos legais manifestam-se como os turcos gerais apresentando antes de tudo as reivingicações democráticas gerais.

Em 1989 foi criado o Partido Popular de Trabalho, segundo seu programa “partido dos trabalhadores, desempregados, camponeses, funcionários públicos, professores, dos inteletuais democráticos, social-democráticos e socialistas, dos artesãos, comerciantes, das massas populares que sofrem da violência e exploração, de todos que apoiam a democracia”. O partido exortava a um compromisso político com vista a pôr o fim a um incessante derramamento de sangue no leste da Turquia e declarava que a “solução do problema curdo através dos mêtodos democráticos e pacíficos  seria o principal meio que garanta uma democracia sólida no nosso país”.    Na sua segunda  redação o programa tinha uma formulação mais dura: “Quanto ao problema curdo, o PPT defende totalmente o princípio de autodeterminação de cada nação”. Isso resultou em sua proibição em 1993 com a formulação “por dar aopio ao separatismo”.

O Partido da Democracia fundado naquele mesmo ano propôs resolver o problema curdo “através de um modo pacífico e democrático”. Para este fim seus ativistas foram para encontrar-se com o lider do PTC, Abdullah Odjalan. O encerramento do partido proclamado a “ala política do PTC” não demorou longo.

Passodos dois meses foi fundado o Partido da Democracia Popular que declarava praticamente os mesmos objetivos e apresentava as mesmas reivindicações que suas antecedentes. A participação de seus militantes nas ações de protesto contra a prisão de Odjalan tornou o encerramento do partido ineitável.  Issosedeuemmarçode 2003.

Mas de antemão, em 1997, foi registado o Partido Democrático Popular, como o “de reserva” o qual logo teve o destino das suas antecedentes.

O limiar dos séculos ХХ e XXI passou sob o signo de admissão da Turquia na União Europeia. O problema curdo que exigiu uma solução urgente foi colocado na agenda do governo. Isso resultou em levantamento do estado de emirgência nas regiões curdas. Foi garantida a proteção contra torturas durante os interrogatórios, foram atenuadas as limitações da liberdade de expressão e de reuniões. Foi dada a possibilidade de os curdos aproveitarem-se da sua língua materna na vida cotidiana. Uma série pos povoados voltou a ostentar antigos nomes curdos, foram criados meios de comunnicação social no idioma  curdo.  Caso estas reformas fossem postas em prática nos anos 1980, a atual oposição étnica não teria sido tão grave. Mas no início dos anos 2000 isso já não foi suficiente.  

O Partido da Sociedade Democrático fundado em 2005 pelos antigos parlamentares curdos que acabaram de sair de prisão declarou a necessidade aumentar o papel das autoridades locais na vida política do país (i.e. “o princípio de autonomia democrática”). Não tendo tomado parte formal das eleições parlamentares de 2007 o PSD apresentou os “candidatos independentes” o que lhe permitiu contornar a condição de vencer o barreira de dez por cento e trazer para o prlamento 20 deputados que logo em seguida “voltaram” ao partido criando uma bancada parlamentar. A reivindicação de libertar Odjalan apresentado pelo partido fez com que o foi culpado das “relações organicas com os terroristas” e encerrado em 2009.

Os chefes das administrações locais e os parlamentares do PSD ingressaran no “Partido da Paz e Democracia” criado um ano antes e transformado no “Partido Democrático das Regiões” em 2014. Passado mais um ano seu nome foi bem conhecido em toda a parte. Naquela altura, nas condições de um levantamento armado dos curdos no leste e no sudeste da Turquia uma série dos municípios encabeçados pelos membros do partido rompeu todas as relações com o governo central, praticamente declarando a independência de seus povoados e cidades. 

Em 2013 foi fundado o Partido Popular-Democrático. Durante um encontro com o ministro das relações exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, em Moscou, seu co-presidente, Selakhettin Demirtach, deu à sua organização a seguinte caraterística: “Nosso partido defende o pluralismo democrático a ser instiuido no nosso país, à edificaçaõ de uma sociedade livre nos marcos da qual poderiam existir as culturas, confessões e identidades diferentes. Manifestamos de princípio a favor da paz civil  dentro do país e a favor da paz com nossos vizinhos e dentro da região”.   

Um grande êxito do PPD foi o resultado das eleições parlamentares de junho de 2015 quando um partido curdo pela primeira vez venceu a barreira de dez por cento (13 por cento ou 6,2 milhoes de votos) e obteve 80 lugares na Grande Assembleia Nacional não permitindo o governante Partido da Justiça e Desenvolvimento formar um governo  unipartiário; Aliás o agravamento das hostilidades no leste e no sudeste, bem como a patrocinada pelo partido governante campanha propagandista contra o PPD resultaram em um malogro relativo nas novas eleições (em 1 de novembro de 2015) quando a barreira de  dez por cento foi ultrapassada com dificuldade. Passado um mês em uma das intervenções públicas  Selakhettin Demirtach qualificou os combates no leste do país como a “resistência popular” em vez da “operação anti-terrorista” como costumam dizer na Turquia. Esta formulaçaõ repeliu do partido seus numerosos apoiantes no seio dos turcos étnicos e desatou as mãos das autoridades que iniciaram as prisões dos dirigentes do partido que continuam até agora.

Detalmaneira, acontinuidadedemonstradapelospartidoscurdosnasatitudesprogramâticosenacomposiçãodopessoalpermitereferir-nosdefatoaum únicopartidopolíticolegaldoscurdosturcosque, apóscadanovoencerramento, é ressurgidosobumnovonome.

Com isso vimos uma deslocação do “centro de gravidade” das reivindicações do carater cultural e civico geral para o domínio político. Ao mesmo tempo as autoridades, como que pareça, preferem deixar de aceitar o fato de o problema curdo ter tornado em um problema político e procuram  resolve-ló através de reformas na esfera da cultura e dos direitos democáticos gerais em conjunto com os mêtodos “anti-terrorisras” de força. É provável que isso seja a maior razão dos entraves no diálogo entre as autoridades e os políticos curdos.  

O incremento do movimento curdo  no limiar dos séculos passado e atual contribuiu para o aumento da atividade social das outras comunidades no país. Os líderes da Associação Cultural Abkhasa, os ativistas assírios, a Assosiação dos Árabes Anatolianos apresentaram uma série de reivindicações democráticas gerais e até políticas, dirigindo as ao governo. Mas os mais altos são as vozes dos ativistas da comunidade religiosa alevita (um corrente religiosa com muitos componentes do cristianismo oriental, i.e. zoroastrismo, maniqueismo, - as religiões existentes no Oriente Médio e na Ásia Menor antes da conquista islámica).

Não existem dados fedidignos quanto ao número  dos adeptos desta confessão, mas as estimativas dão 9-12 milhões de pessoas. Uma quantidade tão grande dos cidadãos que se consideram privados de plenitude de direitos é certamente um fator desastabilizante quando se trata de um país multinacional e multiconfessial.  E além do mais, na Turquia o problema alevito é estreitamente entrelaçado com o curdo porque provavelmente 20-25 por cento dos curdos turcos pertencem a esta confessão.  

A apercepção dos alevitas como “inimigos internos” e perseguições sistematicas deles têm a origem no século XVI procedente de agravamento da oposição do Império Otomano sunita e do Irão Safávido (o alevismo é próximo do xiismo). As  medidas punitivas mais crueis contra a população civil que se transformaram em massacres tiveram lugar depois de ter esmagado o levantamento em Dersim em 1937-1938. No apõs-guerra a  antipatia com alevitas ao nível ordinário resultou em atos de devastação e, antes de tudo, em acontecimentos sangrentos em Cakhramanmarach (1978) e e Sivas (1993).

A urbanização impetuosa que se iniciou nos meados do século passado também envolveu centenas de milhares de alevitas que se deslocavam para cidades procurando uma vida melhor. Na Turquia os anos 1960-1970 foram marcados com um impetuoso crescimento de movimentos políticos do espetro esquerdo e esquerdista que  atrairam numerosos adeptos desta religião agravando a atitude hostil para com eles por uma parte considerável da população.

O início de institucionalização do movimento alevita pode ser associado com a criação da Sociedade de Turismo e Cultura Khadji Bequetach (1964). E depois do golpe de 1980 militar os alevitas começaram a apresentar reivindicações sociais. Na segunda metade dos anos 2000 as autoridade finalmente prestaram atenção à comunidade alevita. O malogro relativo que teve tido o PJD governante o fez interessar-se com o potencial  eleitoral dos alevitas. Por esta razão foi oficialmente admitida a existência do “problema alevita” e anunciar o processo de seu solucionamento. Em 2009-2010 até tiveram lugar algumas conferências de trabalho com a participação dos funcionários de estado e os dirigentes das organizações sociais alevitas. Segundo os resultados daqueles encontros foi preparado um relatório governamental final com a seguinte conclusão básica:   sendo que os alevitas consideram discriminados a si próprios e sentem-se rejeitados por parte do estado e da sociedade, o governo deve adotar medidas com vista à eliminação de tal estado das coisas.    

Mas temos de constatar que realmente foi feito nada.

As autoridades deixaram de se interessar pelos alevitas depois de o PJD ter sido reabilitado nas eleições parlamentares de 2011. No entanto, Recep Tayyip Erdoğan reeleito para o cargo do presidente naquele mesmo ano em nome do estado fez desculpas públicas pelo massacre em Dersim pensando que os alevitas fossem satisfeitos com este  passo.

Depois do malogro relativo nas eleições parlamentares em junho de 2015 o partido do poder reabilitou-se nas eleições extraordinárias e formou o gabinete de ministros unipartidário. Apresentando o programa governamental aos deputados o premiê Akhmet Davutoglú então declarou: “Serão satisfeitas as reivindicações culturais básicas dos nossos concidadãos-alevitas que dizem respeito aos centros de educação... Reconhecemos o estatus legal dos centros educativos e das casas de orações”.

Logo em seguida as organizações sociais de alevitas fizeram uma declaração conjunta expressando sua perplexidade com o governo faltar de discutir com eles os passos por ele empreendidos e até faltar com respostas aos pedidos relacionadas a isso. Na parte final da declaração foram formuladas as reividicações da comunidade alevita às autoridades: tirar do programa de ensino escolar  a matéria obrigatória “sunita”, conceder o estatus de instituições religiosas às casas de orações, devolver os lugares de culto às comunidades alevitas, acabar com as práticas de segregação confessional na admissão de empregados, alunos, etc., deixar de construir mesquitas nos povoados alevitas, encerrar a Administração para as Religiões, assegurar uma igualdade cívica real sem tomar em consideração a confessão.   

O problema alevita que permanece por ser solucionado é prenhe de um sério conflito social no futuro visível. Considerando um grande número da comunidade alevita seria possível faxer a suposição de que uma revolta dentro dela possa trazer consequências extremamente negativas para a Turquia. Devemos guardar na memória que entre os oito mortos durante  o motim em Estambul em 2013 (“movimento Gëzi”) sete foram alevitas, e mutios representantes desta confessão estão nas fileiras das organizaçãoes turcas de extrema direita.

Mas os alevitas, mais provavelmente, vão obter seus objetivos de uma outra maneira: seria possível transformar consideravelmente o relevo político no país com milhões de votos deles. O Partido Popular-Republicano, um partido turco comum, goza de uma tradicional preferência deles, mas ultimanente as exortações para a criação de um partido alevita próprio tornam-se cada vez mais vocalizadas na sua comunidade. 

As reivindicações da comunidade alevita ainda não alcançaram um nível político pernamecendo na esfera da cultura e da vida social, e transformações do caráter social bastariam para aliviar a tenção. Mas o mal é que o estado parece não esteja ouvindo seus opositores. Caso contrário, não fossem propostas tais “medidas de apaziguamento” como a admissão dos alevitas nas mesquitas que não são frequentados por eles, e a concessão aos “anciões” (os líderes religiosos) do status de funcionários públicos, incompatível com seu status tradicional.  

 

Com o início da guerra na Síria e no Iraque o problema curdo que continua exigindo uma solução tornou-se um grande fator determinante para a política externa da Turquia. E além do mais, o regime sírio da qual Ancara nada gosta tem como um apoio, entre os outros, a comunidade alavita (nussairita), próxima dos alevitas, o que levou ao aumento da pressão sobre os alevitas turcos exercida “de cima” e ao crescimento da alienação por parte da maioria sunita. Por isso não seria possível excluir o surgimento de uma nova “linha de ruptura” social e política com as consequências a serem difíceis de prognosticar.