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sábado, 13 julho 2013 23:21

A América Latina requer um enfoque especial

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“Vida Internacional”: Sr. Riabkov, qual é a retrospectiva histórica das relações entre a Rússia e os países da América Latina e como, na sua opinião, elas se desenvolvem hoje? 

Serguei Riabkov: Quanto à retrospectiva, creio que são poucas as regiões do mundo longe das nossas fronteiras, — se, inclusive, existem, — em que haja tantas pessoas que simpatizam com a Rússia, pessoas que ora fizeram cursos no nosso país ou estão ligados de alguma maneira a ele.

Pessoas, para as quais os ideais, que defendemos outrora na qualidade do país, foram bastante próximos, que encaravam a Rússia (União Soviética) como símbolo da justiça social e do avanço a um futuro melhor. Este conjunto de circunstâncias, que se pode qualifi car em principio como único, continua a exercer até hoje influência positiva sobre as relações entre a Rússia e a região latino-americana e sobre as perspectivas de desenvolvimento dos nossos vínculos. 

Certamente, houve um período difícil, houve nas relações o momento em que parecia que a Rússia tinha abandonado totalmente a região ou estava prestes a abandoná¬la, sair de lá e cuidar de alguma outra coisa. Por sorte, este período cedeu lugar à atual etapa de desenvolvimento pragmático, embora nem sempre bastante dinâmico, de relações. Mas para mim é evidente que o processo de retorno da Rússia para a América Latina está em andamento e que nós começamos a compensar numa certa medida as perdas da década de 90 do século passado e dos princípios dos anos 2000. Em primeiro lugar, este é um resultado da consolidação geral das posições da Rússia no plano internacional e de um certo incremento do nosso potencial, — não somente do potencial político, mas também do potencial no plano econômico internacional. Isto se deve também à política orientada pela consolidação de relações de parceria com todos os países que revelam interesse para com isso. 

Gostaria de assinalar que ao contrário do período soviético agora não temos preferências ideológicas evidentes e abertas, nem a aspiração de contrapor as relações com um certo país ou grupo de países à ausência destas relações com outros Estados. Portanto, a América Latina não é uma região em que a Rússia compita de alguma maneira pela sua infl uência. Este objetivo não se tem em vista, além disso a sua realização é simplesmente impossível. A América Latina não é região em que façamos tentativas de estimular processos que criem problemas para quem quer que seja. Temos vários exemplos comprovando que a nossa colaboração em diversas esferas desenvolve-se também com os Estados, cujos governos levam a cabo uma política que não coincide com curso da política externa da Rússia. 

Aliás, mesmo lá, dentro da região, eles não se entendem bem. Tenho em vista o desenvolvimento bastante bom das nossas relações com a Colômbia que tem como pano de fundo a parceria bem avançada entre a Rússia e a Venezuela. Temos a possibilidade de cuidar ativamente do turismo e do trabalho relativo ao regime internacional na esfera de não proliferação de armas de extermínio em massa com o México, embora este país não pertença ao grupo de países latino-americanos de orientação esquerdista, tipo ALBA, que se contrapõem aos EUA ou ao Canadá. O México é o parceiro mais próximo dos EUA e do Canadá. Além disso, a Argentina, o Brasil, Peru, Chile.... 

Não posso indicar um só pais da região, cujas relações conosco não registrassem um incremento, — nem que seja pequeno e às vezes, bastante grande, — em diversas esferas, desde o comércio e terminando com oportunidades muito maiores para realizar viagens sem vistos. A América Latina é uma região em que nos últimos anos foi feito muito e estamos seguindo realmente a via de transformação de toda a região em zona de supressão de vistos para os nossos cidadãos. Quanto ao Brasil, as nossas relações com este país têm um caráter especial. Colaboramos de uma forma muito estreita e bem organizada com o Brasil no formato de BRICS. Esta colaboração abrange também questões internacionais e não somente os aspectos econômicos e financeiros. Aliás, o BRICS começava precisamente com a reforma de instituições financeiras internacionais, etc. Já começamos a colaborar com os brasileiros na esfera cósmica. 

Temos tido um crescimento bom no comércio com a Argentina. Uma situação única surgiu no caso do Equador — a ponto de que foi aberta uma linha comercial direta de transporte de contêineres Guaiaquil — São Petersburgo. Na minha opinião, anteriormente não havia nada disso. São estudados projetos de investimento, incluindo projetos que permitirão aos produtores de bananas desenvolver a produção graças a investimentos da Rússia, que irão abranger também a ampliação de capacidades instaladas da embalagem e da transformação dos seus produtos. A companhia russa “Zarubejneft” perfura poços de prospecção em Cuba. Existem boas idéias novas... 

“Vida Internacional”: Sr. Riabkov, como, na sua opinião, se desenvolve a colaboração das nossas companhias particulares com o business dos países da América Latina? Até agora semelhantes contatos estavam um tanto “encalhados”. Falando honestamente, os empresários russos não acusavam grande vontade de ir para esta região longínqua... 

Serguei Riabkov: Sim, provavelmente a situação é esta. No entanto, surgiram germes de interação direta do business russo e latino-americano. Não pretendo exagerar a sua importância, mas semelhantes exemplos existem. Pode-se mencionar a criação pela companhia “Yota”, no quadro do projeto da nossa companhia estatal “Rostekhnologuii”, — da comunicação celular da quarta geração que funciona e supera, quanto à qualidade dos serviços prestados, os demais concorrentes. Este é o índice do novo modo de condução de negócios entre os nossos países. Quero dizer, de um modo geral, que agora se forma o novo modelo, uma nova variedade de relações que difere da anterior. Teremos também outras provas disso. Por exemplo, ampliam-se fornecimentos do equipamento de geração de energia. Ganhamos a licitação no Equador. A companhia russa “Máquinas geradoras de força” tem tido boa presença na Argentina. Os nossos helicópteros têm boa saída na região. Fazemos o que podemos. 

Não posso deixar de ressaltar que os países latino-americanos continuam interessados em que os seus estudantes universitários façam cursos na Rússia. Certamente, a envergadura é menor do que no período soviético mas mesmo assim se trata de dezenas e até centenas de pessoas, que fazem os mais diversos cursos. Neste caso também existem certos problemas relacionados ao financiamento e ao pagamento de bolsas de estudo condignas. Mas mesmo estes problemas complexos são suscetíveis da solução. Não falei ainda dos exemplos da cooperação cultural e humanitária que se intensifi cou sensivelmente nos últimos anos. Começamos a trocar mais frequentemente as tournées de conjuntos de música e de balé e manter esta esfera num determinado nível. Aliás, o limite da perfeição não existe e é preciso ampliar esta prática. Começamos a fitar mais frequentemente o passado um do outro. Ao folhear novamente as páginas da história comum, adquirimos o potencial para novas realizações no futuro. E nós temos em vista o objetivo a alcançar. 

“Vida Internacional”: O que é que nos impede e fria a ampliação mais intensa e mais “impetuosa” das nossas relações com a região latino — americana? Será que o atual ritmo de desenvolvimento de relações nesta região não nos faça perder esferas inteiras de colaboração potencial? Embora não compitamos com ninguém, os nossos concorrentes não dormem. Ou o empresariado russo ainda não está pronto a desbravar as “selvas” da América Latina? 

Serguei Riabkov: Na minha opinião, está pronto, mas este fenômeno ainda não é geral. Já foram mencionados exemplos reais, fatos de interação russo — latino-americana. Quanto aos problemas, estes certamente não faltam. Creio que existem três temas que exigem o ulterior trabalho persistente para não atrasar a outros jogadores nesta área e conservar o dinamismo da interação, evitando paradas. Em primeiro lugar, é preciso buscar vias de ampliação do diapasão econômico da presença russa na região. É que a nossa exportação e importação têm um caráter monocultural. Fornecemos aos países da América Latina basicamente os adubos, alguns tipos de material técnico de guerra, 

o metal laminado e a alguns países também o equipamento eletrotécnico. Conta grossa, — é só isso. Quanto à importação de muitos países da região, esta se reduz à produção agrícola, suscetível de vacilações em função da conjuntura e da demanda. Aliás, ultimamente deu-se o incremento do turismo da Rússia para a América Latina, o que se deve, em particular, a problemas nas esferas tradicionais do turismo russo — o Egito e, em parte, a Turquia. Mas não temos outra base material. Temos que fazer investimentos na América Latina. O ritmo de desenvolvimento do business é realmente muito baixo e o recurso administrativo destinado a estimular este processo resulta insuficiente. O nosso business continua passivo. Concordo com você, — este enfoque dos países latino-americanos é, de um modo geral, inerte. Todavia, as possibilidades existem e somos simplesmente convidados a aproveitá-las. 

Em segundo lugar, por que não temos a possibilidade de proporcionar o devido volume de estimulação de operações de exportação e importação e fornecer garantias estatais para os investimentos, dado que já tinham sido criados bancos especializados? Não existe também uma estrutura estatal íntegra, capaz de cuidar das questões de ajuda e de contribuição para o incremento da colaboração, ao molde do que existe em muitos outros países, por exemplo, na China. Devemos trabalhar também nesta esfera. 

E, em terceiro lugar, por que temos tido atraso na interação com a América Latina em comparação com alguns outros países europeus e asiáticos? Creio que isso ocorre porque ainda temos o enfoque atrasado da América Latina como uma região longínqua, interessante e exótica, mas, todavia, estamos concentrados mais na colaboração com a Europa, com os países — membros da CEI e com a China. E, conta grossa, começamos a prestar atenção à América Latina somente depois de todas as demais esferas. Os nossos museólogos e alguns conjuntos artísticos seguem a mesma fi losofia. É difícil de unir tudo isso num sistema único e sem um enfoque complexo não poderemos obter um incremento significativo. Aliás, é bastante difícil de competir com os ensejos financeiros na esfera econômica de que dispõem outros países, por exemplo, a China. Neste caso é preciso ser realistas. Devemos trabalhar aproveitando as nossas vantagens — posições mais profundas na região, a atitude positiva dos latino-americanos em relação à Rússia, a ausência de preconceitos e a compreensão do fato de que o nosso país é importante força internacional e uma fonte da estrutura policéntrica e multipolar do mundo. A compreensão disso deve ajudar-nos a consolidar o nosso papel na América Latina. A inércia dos círculos de negócios, a ausência de finanças e o enfoque desta região na qualidade de algo que pode ser considerado como uma esfera secundária — são, provavelmente, estas as três razões principais que impedem o desenvolvimento mais intenso das nossas relações. 

“Vida Internacional”: Sr. Riabkov, o melhoramento da imagem externa é uma das mais importantes esferas da estratégia de política internacional de qualquer Estado que se preza. Os especialistas neste setor afirmam com toda a razão que a imagem de um país e da sua gente no estrangeiro determina em grande parte a mais ampla gama de aspectos econômicos, políticos, informativo — culturais e outros das suas relações externas. A imagem positiva ou negativa do Estado faz inevitavelmente importantes emendas na sua política interna e externa, influencia a sua segurança. Não acha que a nossa atividade na esfera da “imagem” não é muito boa? Poupamos recursos ou falta o tempo? 

Serguei Riabkov: Estou de acordo, o trabalho na esfera da imagem da Rússia na América Latina por enquanto não pode satisfazer-nos. É preciso buscar formas modernas sem menosprezar aquilo que sempre tinha nos prestado bom serviço. Quanto a formas modernas, trata-se da ampliação das possibilidades de radioemissão e dos contatos através da Internet. Deparamos falta aguda do trabalho em espanhol para o auditório hispanófono. Certamente, temos a radiodifusão para a América Latina, funciona a estação de televisão “Rússia Hoy”, as agências RIA Novosti e ITAR — TASS têm difundido as suas informações em espanhol. Mas hoje tudo isso não basta. O número de livros, jornais e revistas que se publicam em espanhol é absolutamente insuficiente. Temos que praticar aquilo que agora se faz episodicamente, raramente ou em doses muitos pequenas, ou seja, lançar anexos aos jornais e revistas dos países da América Latina. Esta experiência existe. Mas nós gostaríamos de ampliá-la. Vamos fazer esforços a fim de realizar o trabalho de redação conjunto e preparar programas temáticos, dedicados, por exemplo, à atividade do grupo BRICS. E esta atividade não pode ser tediosa — mas, pelo contrário, interessante e cognitiva. 

“Vida Internacional”: A julgar por aquilo que o Sr. acaba de dizer, o Sr. é grande otimista. Concorde, aliás, que cuidar da América Latina sem uma carga potente de otimismo e disposição jovial é simplesmente impossível. Quais são, na sua opinião, as perspectivas das nossas relações nesta esfera? 

Serguei Riabkov: Perspectivas? Tudo depende de nós. Não existe nenhuma restrição. Se construirmos hotéis em Cuba, se um número cada vez maior de futebolistas brasileiros jogar nos nossos clubes apesar das diferenças do clima, se o vinho chileno e as bananas do Equador forem produzidos à custa de investimentos russos mas nos territórios destes Estados, se continuarmos a fornecer o material técnico de guerra para os países da região e construir lá objetos da matriz energética, se um número cada vez maior de estudantes latino-americanos procurar fazer cursos nas escolas superiores da Rússia, teremos boas perspectivas. 

Certamente, a América Latina tem numerosos problemas internos. Mas se trata, basicamente, dos problemas de incremento. Quanto ao potencial econômico e humano desta região, este, de um modo geral, é enorme. Um exemplo convincente de desenvolvimento bem-sucedido neste continente demonstra o “gigante tropical”, — o Brasil. 

É preciso que o nosso aspecto na América Latina seja condigno e é preciso que a Rússia seja encarada lá como um centro de atração. Vamos fazer esforços para alcançar este objetivo. Importa ter uma política bem pensada, importa manter relações de amizade e colaborar com todos os parceiros da região. Note-se que agora já temos uma base razoável para isso. Resta apenas apoiar-se nela e dar os passos seguintes. 

“Vida Internacional”: Agradeço, Sr. Riabkov, a entrevista interessante e espero que no futuro venhamos a discutir novamente o desenvolvimento da colaboração russo — latino-americana. 

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Serguey Riabkov

Vice-Ministro das relações exteriores da Rússia