InterAffairs

Sex.12152017

Last update09:48:30 AM

Leia nesta edição:
RUS ENG FR DE PL ESP PT ZH AR

Font Size

SCREEN

Profile

Layout

Menu Style

Cpanel
segunda, 28 abril 2014 09:36

“Adeus, Gabo!”

Written by 

Grande prosador do século XX, laureado com o Prémio Nóbel de Literatura, Gabriel José García Márquez foi-se para a eternidade. Isso aconteceu quando ele teve 87 anos de idade, em 17 de abril, na Cidade de México onde o escritor morava praticamente permanente durante as últimas décadas. Nestes dias todos os leitores, todo o mundo literário e jornalista estão lamentando, e na Colômbia, país natal do escritor, foi proclamado luto de três dias.

É sempre triste a percepção de uma êpoca de corifeus estar acabando aos seus olhos, sendo esta êpoca uma parte da sua vida, da vida de um testemunho ocular da êpoca grande das grandes pessoas.

Gabriel García Márquez, jornalista da classe mais alta e um dos fundadores do chamado “realissmo mágico”,  tornou-se um clássico mundial já no tempo da sua vida. E, como sempre acontece nos casos semelhantes, seus admiradores não duvidavam  que o escritor teria uma vida  eterna, que ele fosse imortal. E isso é realmente assim numa certa medida. Márquez adquiriu a imortalidade com suas obras de ficção literária, com seus ensaios e reportagens.  E só com a notícia inesperada do falecimento do “imortal” as massas de pessoas começam a entender que  todos são mortais, tanto os génios, como os medíocres. Mas o que é importante no entanto são as coisas que cada pessoa deixa para os seus descendentes. É isso que constitue a medida histórica de uma personalidade. 

… Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927 no povoado de Aracataca no litoral atlántico da Colômbia. Gabo, - este nome afecionado deram-lhe na América Latina, foi o mais velho dos 12 filhos na família de Gabriel Elígio García e de Luiza Santiaga Márquez.

Na sua enfância Gabriel foi um testemunha ocular involuntário da famigerada “febre de bananas” que nas primeiras décadas do século XX abarcara Aracataca que, passado o tempo, tornou-se o protótipo do povoado  fabuloso de Macondo com suas plantações de banas enormes refletidas pelo escritor Márquez num espelho do realismo mágico da sua imaginação. 

Em 1947 Gabo muda para Bogotá para estudar o direito. Durante cinco anos  procura tornar-se jurista, mas esta profissão, como disse ele mesmo,  dava-lhe um tédio de morte tão grande que ele decidiu abandonar esta carreira. No entanto jovem Márquez apaixonou-se pelo jornalismo. Na história ficou registado o facto: Gabo publicou sua primeira observação num jornal quando teve 19 anos de idade – em 21 de maio de 1948. Desde então e até o último dia da sua vida estava convicto e procurava convencer outros de que “a profissão de jornalista foi a melhor profissão no mundo”. E mais tarde ele vai dizer isso muitas vezes nas suas memórias e intervenções. 

Gabriel faz muitos comentários para o jornal “Espectador”, em seguida – para o “Heraldo” e para numerosos jornais e revistas da América Latina, da Espanha e dos EUA. Ele torna-se testemunho ocular das revoluções e revoltas, de uma violência cruel e das ditaduras militares, estuda a vida não com os manuais, mas na prática, na qualidade de repórrter, de interlocutor e de amigo de muitos líderes revolucionários latino-americanos. Gabo dedica-se à leitura tendo como seus ídolos Kafka, Joice, Folkner, Wolf e Hemingway. Márquez  faz numerosas viagens pela América Latina e pela Europa trabalhando como repórter de vários jornais nas capitais de muitos países do Velho Mundo e ao mesmo tempo escrevendo contos e novelas. Ele consegue elaborar uma simbiose pesssoal do jornalismo com a literatura. Em 1958 ele faz uma viagem grande pelos países do leste da Europa inclusive a União Soviética publicando uma série de reportagens sob o título “Noventa dias por trás  da Cortina de Ferro”. Em Paris Márquez trabalha com afinco durante um ano e meio criando a sua obra mais importante – romance intitulado “Cem anos de solidão”. Publicado em 1967 o livro tem uma tiragem grande. Este é um sucesso enorme. Em seguida, desde 1968 até 1974 Gabo reside em Barcelona. O escritor observa a agonia do regime franquista na Espanha.  Em 1975 vem a lume mais um seu romance marcante - “O outono do Patriarca”.  No plano político Márquez compartilha as opiniões da esquerda tendo amizade com tais líderes revolucionários como Fidel Castro e Omar Torrijos, os sandinistas na Nicarágua e (mais tarde) com Hugo Chaves na Venezuela.  Em 1981 o escritor publica a sua “Crônica de uma morte anunciada”. Em 1982 é laureado com o Prémio Nobel de Literatura. Uma parte do Prémio de 157 mil dólares ele gasta com a aquisição do seu próprio jornal na Colômbia convidando para trabalhar jornalistas jovens, menores de 30 anos de idade.  

O escritor anda trazendo na mão ou na lapela uma goiabeira branca das Caraíbas e de uma rosa amarela – o símbolo da Colômiba. Esta flor torna-se seu mascote pessoal que sua mulher Mersedes coloca na escrivaaninha dele cada dia …

- Que são as virtudes que o Senhor respeita mais do que as outras? -  perguntaram a Márquez uma vez. 

- Franqueza, - respondeu o escritor. -  Sendo que no mundo resta cada vez menos da franquesa que, como chagrém, desaparece  aos nossos olhos е por tanto ganha um valor especial transformando-se de um atributo indespensável da personalidade humana em uma qualidade especial.  

- Qual é o vício menos favorecido na opinião do Senhor?

- Mentira, para a qual não sinto nada salvo a irritação e o nojo. 

- Em que o Senhor vê o sentido da vida?

- Na possibilidade re realizar-se, de realizar seu Sonho Maior e saber o amor verdadeiro. Cada um de nós deve atravessar swu próprio caminho indicado pelo Nosso Senhor, viver exatamente sua própria vida e não a de uma outra pessoa... 

…Tive um breve contato pessoal com Gabriel García Márquez que ocorreu em 1990 em Havana. Então estive trabalhando em Cuba como correspondente do jornal “Pravda”, e juntamente com outros jornalistas foi convidado para a inauguração solene do festival “O cinema latino-americano novo” organizado e presidido por Gabo.  No cinema “Carlos Marx” estiveram numerosas personalidades de cultura de destaque cubanos e latino-americanas. Naquela êpoca procurei em vão encontrar-me com Márquez para tomar uma entrevista. O escritor  tive então uma residência temporária em Havana, e muitas pessoas sabendo disso pediram uma audiência com ele não tendo porém qualquer resposta. No entanto correram boatos de que ele, zangado com seus colegas-jornalistas por uma razão desconhecida, não desejasse categoricamente dar entrevista. Mas eu continuava com as esperanças. Finalmente tive uma oportunidade durante o festival. No cinema inesperadamente apagou-se a luz, os aparelhos de ar condicionado deixaram de funcionar. Isso foi uma coisa comum em Havana por causa de avarias frequentes nas linhas de eletricidade, de malfunções de transformadores ou simplesmente por causa de poupança da energia elétrica. Surgiu uma pausa, acenderam a luz de emergência e entreabriram as portas que deram para a rua.  Naquele momento vi um grupo das personalidades de cultura cubanas cercando Márquez. Pensei que isso seria a opotunidade tão almejada.   Apresentei-me chegando para o escritor. Disse que gostaria de tomar uma entrevista exclusiva para o meu jornal, pedi marcar o lugar e o tempo do encontro. Márquez disse nada em resposta, mas vi que ele esteve de bom humor embora no seu olhar e nas suas expressões  tivesse um certo sarcasmo quando falava da União Soviética e de Mikhail Gorbatchev.  Não reagindo ao meu pedido para marcar o encontro ele fez uma pergunta com uma dose de ironia: “Que atitude o Senhor tem para com Mikhail Gorbatchev?” Realmente fiquei um tanto perplexo com estas palavras. Representando em Cuba o maior órgão da imprensa soviética não tive jeito para dar uma estimativa ao Secretárrio Geral do PCUS. Depois de uma pausa breve disse com firmeza que tinha a atitude para com Mikhail Gorbatchev como para o Chefe do Estado soviético.  Então Márquez fez outra pergunta, ainda mais insidiosa: “O Senhor dá apoio a Gorbatchev ou a nós?” Retorqui no mesmo tom: “Estou apoiano os revolucionários verdadeiros em todo o mundo, е Gorbatcheve pratica a política  de reconstrução revolucionária na URSS”. Gabo sorriu percebendo que me desmontara, e contente com a sua “tortura criadora” apertou minha mão para fazer pazes comigo.

Após esta “prova de fidelidade a Gorbatchev” Márquez deu-me o telefone do seu secretário dizendo que contatasse com ele para marcar a data e a hora da entrevista. Trocámos umas frases sobre o festival de Havana e demos mais um aperto de mãos. Acenderam a luz, e voltei para meu lugar na “camarote da imprensa” contente com o que tinha combinado com Márquez.        

Nos dias seguintes estava tenazmente discando o número que me dera Gabo, mas ninguém atendeu. Passado um par de semanas ouvi uma voz masculina desconhecida dezendo que Gabriel García Márquez agora não esteve  em Cuba tendo partido de avião para México…

Assim, por força de certas razões (apenas posso adivinhar que razões foram estas) não me tornei um dos poucos jornalistas felizes aos quais o classico colombiano deu uma entrevista exclusiva. 

Mas isso nada impediu-me tentar a ler quase todas as suas obras excelentes em espanhol e eem russo, bem como o que outros escritores e jornalistas tinham escrito dele.

E aquela conversa com Márquez em Havana vou guardar na memória até o fim da minha vida…

Em 2012, quando o mundo ceelebrava o 85-to aniversário do Mestre, o “Ano de Márquez” também foi amplamente comemorado na Rússia, - no país que Gabo amava, pelo qual se preocupou da mesma maneira como pela sua pátria, como por toda a América Latina.  Mas foram nós de que ele tratou dizendo que as pessoas mais interessantes viveram na Rússia. E Márquez, bem como sua criatividade sempre gozaram de um amor e de respeito na Rússia. As obras dele foram e continuam sendo acessíveis a todos que têm interesse por elas. Praticamente todos  seus livros foram traduzidos para o russo, aqui se pode comprá-los ou alugar em uma biblioteca. Na verdade tenho uma certa inveja dos que ainda não leram os contos e romances de Márquez, porque estas pessoas têm um enorme prazer em frente. 

…Rendendo homenagem ao escritor grande a Rússia sem dúvida vai ter a memória do Mestre, vai ler os livros dele compartilhando os princípios humanistas altos que tanto agradam à alma russa. As obras de sua autoria vão permanecer nas bibliotécas pessoais de muitos de nós. São tais livros como “Cem anos de solião”, “O outono do Patriarca”, “O Amor nos tempos do cólera”, “Ninguém escreve ao coronel”, as memórias “Viover para contar”, “O general em seu labirinto” e muitos outros. Lidas agora, estas obras vão ser lidas pelas pessoas de gerações futuras surpreendendo sua imaginação e sentimentos com o realismo mágico, tão próximo de nós, e com a filosofia  da existência.

E na Rússia como no mundo inteiro  nestes dias podemos ouvir as palavras semelhantes: “Adeus, Gabo! Vamos guardar sua memória! E os seus livros vão nos ajudar a perceber melhor a vida”

Read 1037 times Last modified on segunda, 28 abril 2014 09:39