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quinta, 29 agosto 2013 00:00

Мulticulturalismo: guerra ou paz?

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Náo foi a Europa onde nasceu a ideia de multiculturismo.É de supor que na Canadá, Austrália e nos EUA este modelo tem sido implementado com sucesso já durante umas dêcadas; Claro que mesmo alí nem tudo está correndo bem, se tomar em conta, por exemplo, um crescente desequilíbrio demogrâfico a favor  da população norte-americana da expressão hispânica. Porém estes países parecem hoje um refúgio tranquilo em comparação com as veementes paixões europeias. 

Seguindo as tendências e acontecimentos dos últimos decénios não seria difícil chegar à conclusão que o paralelismo multicultural, a"guetização" e encravização das minorias culturais fizeram com que a Europa estivesse no estado de multiculturismo conflituoso e "tenso" Como uma consequência seguiram as declarações de que "o multiculturismo está morto" feitas por Nicolas Sarkozy, Angela Merkel e David Cameron feitas de sua própria maneira a cada um deles, mas com uma rara coesão.

É verdade que anteriormente também não havia falta de críticos da doutrina de multiculturalismo europeu, sendo o mais destacado dos quais o antigo Chanceler da Federal Alemanha, Helmut Schmidt que ainda em 1992 disse:  "Nem a RFA, nem a França, nem a Grã Bretanha não podem ser transformados nos países-recipientes da migração. Isso será insuportável para nossas sociedades que irão degradar... Tudo tem seu limite. Talvez a noção de uma sociedade multicultural tenha um fundamento ético, mas na prática, nas condições da democracia quando cada cidadão pode fazer o que quizer e permitir fazer o que quizer isso é pouco viável." (“Die Zeit”. 22.04.2004. Nr 18). Passado uma dêcada Schmidt não mudou da sua opinião, mas apenas consolidou-se nisso declarando numa entrevista  ao jornal “Die Zeit”: "A sociedade multicultural é uma ilusão dos inteletuais".

Parece que a Suiça seria o único exemplo de um multiculturazlismo harmonioso e estável na Europa. Mas neste país o processo de sua formação durou não umas dêcadas, mas uns séculos, sendo o multiculturalismo suiço uma liga das culturas europeias e não das culturas de civilizações e povos alheios.  

Aqui surge mais uma questão de princípio: qual é a correlação das noções "cultura" e "civilização" no contexto do multiculturalismo, e de que se trata praticamente – de um conflito das culturas ou de um conflito das civilizaçãoes o que é longe de ser igual?

Não tendo uma resposta a esta questão seria difícil responder a outra: se têm razão os representantes da classe política europeia que têm a edificação de uma sociedade multicultural como um objetivo, mas não como um instrumento de desenvolvimento do estado?

Nascendo historicamente as civilizações refletem as noções que os povos têm da eternidade, dos fundamentos da existência (não apenas da vida pessoal) as quais com o tempo transformaram-se em diferentes formas da organização social do mundo determinando as por inércia até hoje

É provável que a essência do atual conflito não seja uma colisão das civilizações confessionalmente  "polares", como foi na êpoca das Cruzadas e da Reconquista. Trata-se de uma colisão das civilizações de um padrão tradicional e de uma nova ordem globalista post-industrial e, por correspondência, - das culturas tradicionais e post-modernistas.  

O post-industrialismo e post-modernismo foram “um casulo” da nova civilização em torno do qual foi criada “uma teia de aranha” da nova cultura, das novas noções e dos padrões os quais manifestam-se cada vez mais contraditórios com a tradicional civilização europeia.  

Seguindo Arnold Toynbee, Pavel Florensqui na sua famosa obra "Culto e Cultura "  com o próprio tíulo dela assinalou a gnose básica de qualquer cultura e civilização. Na realidade com a maioria dos povos são exatamente as noções de cultura  que foram (e com uma parte deles permanecem até hoje) o nérvio principal de civilizações e maior força de formação delas. 

Além disso  devemos reconhecer que o mundo muçulmano está atravessando um período de atividade passionária, por enquanto a civilização europeia acabou de entrar numa fase da divisão interna de que resulta a existência da civilização tradicional, orientada com os valores cristãos, e da civilização post-modernista. A última circunstância faz com que a civilização europeia se enfraqueça, se torne apostácia, inerte ou, como dizem, "quente-fria".

Naõ obstante, a mentalidade euroreia tem uma atitude caraterística para com a cultura vista através da prisma de culto. Segundo um dos contemporrâneos investigadores dos problemas da imigração, "a pertinência ao islão torna-se um marcador de diferença – de uma simbôlica delimitação dentro da população dos países europeus, sendo que esta fronteira é traçada em cima de todas as outras”.

Deste modo as "guerras das culturas" transformam-se nas "guerras das identidades".

A propôsito, tal foi a atitude que o mundo cristão teve para com o islão no início da Época Medieval.

Já que se trata das "identidades", confirmamos indiretamente que se trata também das diferenças de civilizações de grandes profundidades que entraram no estágio de antogonismo. Com isso, como foi dito, "a confusão" da Europa no que concerne à identificação contribue para seu enfraquecimento sendo vista por muitos europeus como capitulalção da sua própria cultura para uma invasão cultural de fora.  

Deita lenha no fogo também o facto de o centro de regulação da política migratória na Europa é deslocado para o lado das atitudes globalistas de Bruxelas. Em conformidade com o Tratado de Lisboa às estruturas da CE foram outorgadas as plenipotências super-nacionais no plano de implemento da política migratória geral inclusive a integração de imigrantes. Antes estas questões foram da competência exclusiva dos estados soberanos da Europa. 

Não seria difícil fazer a conclusão de que com a orientação pelos padrões globalistas e cosmopolitas a CE  pode apenas alargar o campo de confrontação do multiculturalismo. Por outro lado está amadurecendo um latente conflito da burocracia da CE com os europeus, portadores da tradicional orientação cultural.  

Em contraposição dos europeus os imigrantes estão acostumados a aprender "o credo" do Ocidente através da cultura ocidental, e esta "nova cultura" provoca uma orgânica releição e protesto deles.

Existe uma grande tentação de chegar a uma ideia de reunião dos europeus "tradicionais" com os muçulmanos a uma semelhante base. Assim Vladímir Monakhov escreve no periódico  "Оtetchestvennie Zapisqui": "Graças à presençã dos muçulmanos na Europa Ocidental surgiram inesperadas aliançãs ideolôgicas e divisores de água ideolôgicos. Em particular foi descoberto que a delimitação dos valores defronta com a secularização das sociedades europeias e com a cultura que tem origem nesta secularização. Um agressivo desalojamento da religião para a esfera privada  levou a um triunfo da agressiva e materialista cultura de consumerismo que não sabe outros valores além de um consumo mais desenfreado. Em resultado surge uma contraversão: de um lado está uma cultura de consumerismo e hedonismo, e de outro – uma cultura com a orientação pelos ideais religiosos. Não é por acaso que representantes oficiaais do Vaticano mais de uma vez apelaram aos muçulmanos como seus únicos aliados na defesa dos valores não materialistas. 

No entanto tudo limitou-se com apelos sendo que não existem razões para a criação de alianças deste tipo a uma base prolongada.

Ao nível empírico a capitulação da Europa cristã em face dos criadores de uma "Nova Europa"  é vista pela imigração como uma apostasia, como renúncia da Europa do papel de um grande vizinho monoteista, uma retirada histôrica  para a gentilidade com um culto de consumo e um secularismo sem alternativa. 

Tendo em vista que no islão a política, os costumes da vida e as leis são inseparáveis da crença e do Al Corão a secularização historicamente admitida na sociedade cristã é nada mais do que a traição de "Deus deles". Como dizem: peste para ambas suas casas – um tropeçou e traiu, e outro quer varrer à face da terra não apenas o edifício da sua religião, mas também o de outros.  

Eis porque no áuge dos debates sobre a imigração na Alemanha o Primeiro Ministro da Turquia Recép Erdogán não exortava a comunidade turca a buscar alianças efêmeras, mas sim, defender sua identidade em quaisquer circunstâncias e não se assimilar á sociedade alemã.

Um dos meus amigos, um muçulmano educado que ativamente pratica culto disse me com uma dose de ressentimento: "O colaboracionismo dos muçulmanos durante a Segunda Guerra Mundial é referido com frequência para justificar sua deportação forçada. Mas não foram poucos colaboracionistas russos ou ucranianos... Mas durante a Primeira Grande Guerra foram os turcomanos, a “Divisão Feroz”, os tártaros de Criméia que estiveram fieis ao Czar até o fim sendo as mais seguros unidades no combate".

"E porque, como penças? – eu lhe perguntei. – Porque então disseram: "Pelа crença, pelo Czar e pela Pátria". Mas, nota bem, começaram com a crença. E cada um tinha sua própria atitude para com esta palavra, mas respeitava a crença de outros. Isso suportava a paz entre as cofessões e respeito mútuo dos ortodoxos e muçulmanos na Rússia. E nos tempos soviéticos a crença tinha sido exterminada, substituida por um aro de ferro da ideologia do estado, deixou de existir este aro – e tudo desmoronou…"

Tomemos, a propôsito, a ideologia. Hoje o colapso do multiculturismo na Europa levanta com urgência a questão do caráter universal dos valores liberais. Defrontando com  a inconsistência do multiculturismo nas profundidades da sociedade democrâtica seria justa a affirmação de que o liberálismo é compatível com qualquer cultura, com qualquer identidade em qualquer parte do mundo?

Claro que ninguem descobriu uma lei de atração ou de repulsão de civilizações. Também é pouco provável que uma tal lei possa ser comum para todos os tempos e povos. Mas acaso não é natural que quanto maior seja a fidelidade de uma pessoa ou uma sociedade à sua civilização e cultura, tanto maior seria o respeito e a disposição a cooperar que representantes de uma outra crença, de outra cultura e de outra civilização tenham por eles?

"Uma cisão na alma humana, – escreveu Toynbee na sua obra "Percepção da História", – isto é o epicentro da cisão que se dá na vida social... Uma ativa alternativa à retirada passiva é o autodomínio quando a alma  "toma em suas mãos a si própria…".

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